"Fixa teu olhar no espelho da eternidade, deixa tua alma banha-se no esplendor da glória e une teu coração Àquele que é encarnação da essência divina, para que, contemplando-O, transformas-te inteiramente na imagem da sua divindade. Assim também tu poderás experimentar o que só os amigos podem sentir quando sobereiam a doçura escondida que Deus reserva desde toda a eternidade àqueles que O amam" (3 CCL).
Este texto nos revela o que Clara entendia por oração.
Oração é abandonar-se no absoluto de Deus. É saborear a doçura silenciosa de Deus. Não esqueçamos que Clara é contemplativa e que o objeto da oração contemplativa é o Tudo de Deus.
Clara nos convida, pela via da oração contemplativa, a nos transformar por completo na imagem de Deus e não o contrário, como costumamos fazer em nossas orações: transformamos Deus num outro igual a nós. Esse é o grande perigo da vida cristã, reduzir Deus as nossas necessidades humanas. Na oração, é o próprio Deus que nos convida a estarmos com Ele. Precisamos silenciar para senti-lO.
A tradição monástica a qual Clara pertencia, nos apresenta quatro estágios de oração:
No primeiro momento, Deus no fala através da sua Palavra (lectio).
No segundo, nós falamos a Deus através da nossa oração (oratio).
No terceiro momento nos fixamos numa palavra e a meditamos (meditatio) e, por fim, o silêncio fecundo de Deus, onde qualquer palavra seria ineficaz e desnecessária (contemplatio).
Muitas palavras na oração nem sempre revelam um coração cheio de Deus, como nos diz a história da carroça vazia:
Um dia o pai convida seu filho para um passeio na floresta; chegando lá ele pede ao filho que feche seus olhos e tente perceber todos os ruídos a sua volta. O filho com os olhos fechados começa a identificar os ruídos: eu escuto o canto dos pássaros; o vento nas folhas das árvores; a água correndo no riacho e... o barulho de uma carroça!
E ela está vazia, não é?
O filho espantado pergunta ao pai: Como é que o senhor sabe que ela está vazia?
O pai sabiamente lhe responde: Porque carroça vazia faz muito barulho.
Santa Clara o convida, jovem, a fazer essa experiência do silêncio. Não um silêncio triste, vazio, mas um silêncio fecundo, dom de Deus, capaz de preencher e alegrar seu coração.
"Àquele cuja beleza é contemplada por todos os santos do exército celeste cujo amor nos encanta, cuja bondade e benignidade nos basta" (4CCL).
A vida de oração passa também por uma exigência de disciplina.
A primeira coisa que abrimos mão quando estamos muito atarefados é a nossa oração. É verdade ou não é?
Sem uma certa disciplina facilmente abandonamos a vida de oração.
Clara era "diligentíssima e muito solícita na oração. E nisto se empenhava de maneira especial" (PC 7,3)
São muitos os testemunhos de suas irmãs a esse respeito: "A bem-aventurada mãe era muito assídua e solícita na oração que fazia largo tempo, humildemente prostrada por terra" (PC 1,9). "A madre era muito assídua na oração de dia e de noite" (PC 2,9); "ficava longo tempo em oração durante a noite" (PC 10,3).
A vida de oração de Clara nos lembra o que recomendou Jesus a seus discípulos: "É preciso rezar sempre, sem nunca desistir" (Lc. 18,1).
Pe. Gilson Sobreiro
Fundador da Fraternidade O Caminho
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