Consagração, conversão levada ao extremo.
























"Ama de todo coração a Deus e a Jesus Cristo seu Filho crucificado" (5 CCL)

A Cruz, só a Cruz é que atrai as vocações. É ela o motivo da entrada do jovem na vida consagrada e de sua permanência.

Esse blog vocacional é uma das formas que a Fraternidade O Caminho encontrou para tratar, através de um "bate-papo" franco, alguns temas que na maioria das vezes constituem um problema na hora do jovem abraçar a vida consagrada.

O jovem que nos procura deve estar ciente que estará vindo para uma vida de renúncias, para uma árdua e difícil missão, para uma austera pobreza, experimentada num clima de perfeita alegria.

Venha viver conosco o desafio de ser discípulo de Cristo.

Não se atrai jovens com propagandas publicitárias, atrai-se com testemunho.

A vida consagrada é chamada a atrair os homens para Deus. Será que pode haver algo mais fascinante que isso?


Pe. Gilson Sobreiro
Fundador da Fraternidade O Caminho



sábado, 19 de maio de 2012


 Visita a Missão de Assunção – Paraguay
Depois de oito horas de viagem chegamos a Assunção. O lugar da partida foi Ciudad Del Leste onde temos duas casas de missão. Os irmãos juntamente com a co-fundadora, Ir. Serva, já estavam na rodoviária nos aguardando. O clima era de alegria e descontração.  
            Quando chegamos a casa das irmãs a mesa já estava servida. Além do já esperado café com leite tinha também alguns “bocaditos” paraguaios; empanadas, chipaguaçu, sopa paraguaia. Para quem não sabe o Paraguai é o único lugar no mundo onde existe sopa sólida. É uma das minhas comidas prediletas.
            No outro dia fomos a casa dos irmãos para celebrar a Santa Missa na qual David e Rock seriam acolhidos para o aspirantado e Jéssica para o postulantado. A alegria não poderia ser maior ao ver as primeiras vocações paraguaias chegando. Além dos três tem mais nove jovens que já entraram e um número bem expressivo sendo acompanhado.
            No outro dia tive a oportunidade de visitar o Cateura. É um nome de um bairro que foi construído em torno de um lixão. Ai existem 428 famílias que vivem dos dejetos que chegam de toda parte da cidade de Assunção. Se não bastasse a situação lamentável de saúde em que essas famílias se encontram uma grande parte do bairro estava inundada pelo rio que transbordou durante a época das chuvas.
            As crianças se banham nas águas infectadas do rio juntamente com os porcos que estão por toda parte. Os mosquitos e o mau cheiro também fazem parte do dia a dia das famílias que ai vivem.  
            Um dos maiores desafios que a comunidade encontrou foi a desnutrição que assola, sobretudo as crianças, por isso a primeira iniciativa dos irmãos e das irmãs foi a de levar comida para elas. A idéia agora é de abrir um refeitório onde as crianças possam se alimentar diariamente, assim como, começar um trabalho junto a pastoral da criança para a pesagem e a produção da multi-mistura.
            Além desse trabalho missionário as irmãs também dão de comer as crianças indígenas que vivem pelas ruas de Assunção e os irmãos visitam as cadeias, o centro de desintoxicação (único em todo o país) e acolhem jovens dependentes químicos.
            O projeto agora é conseguir uma chácara para desenvolver melhor o trabalho terapêutico.
            Tive a oportunidade ainda de me reunir com os nossos leigos de Aliança e fiquei deveras impressionado com o desejo que eles manifestaram de poder contribuir de maneira mais eficaz com a missão.
            Toda a comunidade se prepara agora para o Resgata-me que irá acontecer no inicio do primeiro semestre.
            Uma das coisas que mais me alegrou o coração foi ver uma comunidade marcada pelos laços de benquerença e cuidado mútuo. Sem dúvida essa é a marca dos verdadeiros discípulos de Jesus e a grande herança deixada por nosso pai Francisco quando exclamou ao receber os primeiros irmãos na fraternidade; “O Senhor me deu irmãos”.

           Terminei a visita rendendo graças ao Altíssimo por ter podido contemplar o rosto de uma missão que está apenas começando e que já apresenta tão abundantes frutos.
Pe. Gilson Sobreiro, pjc
             

quarta-feira, 25 de abril de 2012

"Que Procurais?" (JO 1,38)


Diácono Raphael Estevão da Santa Cruz
Quanto mais mergulhamos na vida de Jesus por meio de Sua Palavra percebemos que a lógica divina é bem diferente da nossa, uma pedagogia que rompe nossas estruturas com palavras tão simples, tendo força de desconcentrar o nosso interior. Jesus sempre tem a palavra acertada!


Nisso implica nosso seguimento a Cristo, que, como o jovem rico, acreditamos muitas vezes estar levando uma vida irrepreensível diante de Deus, mas, eis que este Jesus com suas palavras desconcertantes nos pede tudo: “se queres ser perfeito, vai vende tudo que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro nos céus. Depois vem e segue-me” (Mt 19,21).


No mundo atual, muitos jovens querem seguir Jesus, contudo, este seguimento é marcado por “condições” e “contrato de perdas”, ou seja, “quero te seguir Senhor, mas NÃO quero deixar tal coisa...” outros dizem “isso é muito para mim...” Jesus é claríssimo em seu diálogo com o jovem rico, por isso, que antes de aprofundar seu colóquio com o “bom rapaz”, há um questionamento desconcertante do Mestre: “se queres”, porque acima de tudo Jesus respeita a nossa livre escolha. Consagração é uma opção feita na liberdade, é a firme decisão de ser todo de Deus.


Não existe vida religiosa radical, o que existe é seguimento evangélico, e o Evangelho nos exige deixar tudo para segui-lo. Isso me faz lembrar a Bem-aventurada Teresa de Calcutá: “devemos amar até se esvaziar”. Não devemos ter medo do esvaziamento, ele é necessário para que Deus nos preencha.


Enquanto nos perdemos com nossa lista de condições, o Senhor nos exige apenas uma coisa: “vende tudo que tens e dá aos pobres”, sendo livre para viver somente Dele. A vida simples e a pobreza não são opcionais para seguir o Mestre, mas, um critério de sobrevivência da vida religiosa, onde num mundo secular e repleto de alternativas, necessitamos urgentemente redescobrir a novidade do Evangelho. A vida religiosa é a escolha diária pelas opções de Jesus, é ser como Ele, “outro Cristo”.


É tão forte essa Palavra de Jesus, que há uma promessa intimamente ligada à decisão de deixar tudo: “e terás um tesouro nos céu”, “pois onde está teu tesouro ai estará também seu coração” (Mt 6,21). Quando tomamos a decisão de abandonar tudo, o Senhor já nos concede um tesouro celestial, esse tesouro que não é comparado às fortunas deste mundo, muito menos as alegrias que tem para nos oferecer.


Esse tesouro é a eternidade, a participação da incorruptibilidade de Deus, pois tudo que juntamos nesta terra, nela ficará, “onde a traça e o caruncho os corroem e onde os ladrões arrombam e roubam” (Mt 6, 19), mas o que é de Deus perdurará para sempre. O convite que Deus faz a você jovem, que hoje está visitando o nosso Blog Vocacional é exatamente o mesmo que fez ao jovem rico, seja corajoso e não permita que as “coisas” te impeçam de ter a eternidade!


Seguimento é a resposta generosa que Deus espera de você, por isso, fala ao teu coração: “antes mesmo de te modelar no ventre materno, eu te conheci; antes que saísses do seio, eu te consagrei. Eu te constitui profeta para as nações” (Jr 1,5). Eu te exorto querido jovem, pare de se preocupar com o dia de amanhã, “pois o dia de amanhã já tem suas preocupações” (Mt 6, 34), decida-se por Deus hoje, “pois este é o dia do Senhor, seja para nós dia de alegria e de felicidade” (Sl 118,24), o dia de sua decisão!


Quando o Senhor me fez este convite de deixar tudo, eu estava no auge da juventude, apenas 17 anos, uma época de programações, momento de escolhas para a vida, “o que fazer, que faculdade cursar”, mas, sobretudo, um período onde os sonhos estavam mais aguçados. E assim, um homem de palavras desconcertantes entrou em minha vida, sem pedir permissão, bagunçou tudo e me deixou sem estruturas, desconcertado, talvez da mesma forma que você se encontra hoje.


Esse encontro não foi num poço da Samaria (cf. Jo 4,1-27), entretanto, eu estava com a mesma sede daquela mulher: de eternidade. E percebi que todas as minhas buscas frustradas estavam chegando ao fim, e mesmo desconcertado decide pelo Senhor:  “Dá-me dessa água” (Jo, 415).

Onze anos se passaram, hoje faço parte do grupo dos homens mais felizes e realizados deste mundo, pois tenho uma comunidade que me ajuda na busca da santidade e um carisma que me completa. “E quem tiver deixado casa, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos, ou terras por causa do Meu nome, receberá muito mais; e terá em herança a Vida Eterna” (Mt 19, 29). O Céu é nosso, o Céu é logo, decida-se por Ele!


Diácono Raphael Estevão da Santa Cruz, PJC.
Missão de Asunción – Paraguay.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Vida de Oração

"Fixa teu olhar no espelho da eternidade, deixa tua alma banha-se no esplendor da glória e une teu coração Àquele que é encarnação da essência divina, para que, contemplando-O, transformas-te inteiramente na imagem da sua divindade. Assim também tu poderás experimentar o que só os amigos podem sentir quando sobereiam a doçura escondida que Deus reserva desde toda a eternidade àqueles que O amam" (3 CCL).

Este texto nos revela o que Clara entendia por oração.

Oração é abandonar-se no absoluto de Deus. É saborear a doçura silenciosa de Deus. Não esqueçamos que Clara é contemplativa e que o objeto da oração contemplativa é o Tudo de Deus.

Clara nos convida, pela via da oração contemplativa, a nos transformar por completo na imagem de Deus e não o contrário, como costumamos fazer em nossas orações: transformamos Deus num outro igual a nós. Esse é o grande perigo da vida cristã, reduzir Deus as nossas necessidades humanas. Na oração, é o próprio Deus que nos convida a estarmos com Ele. Precisamos silenciar para senti-lO.

A tradição monástica a qual Clara pertencia, nos apresenta quatro estágios de oração:

No primeiro momento, Deus no fala através da sua Palavra (lectio).

No segundo, nós falamos a Deus através da nossa oração (oratio).

No terceiro momento nos fixamos numa palavra e a meditamos (meditatio) e, por fim, o silêncio fecundo de Deus, onde qualquer palavra seria ineficaz e desnecessária (contemplatio).

Muitas palavras na oração nem sempre revelam um coração cheio de Deus, como nos diz a história da carroça vazia:

Um dia o pai convida seu filho para um passeio na floresta; chegando lá ele pede ao filho que feche seus olhos e tente perceber todos os ruídos a sua volta. O filho com os olhos fechados começa a identificar os ruídos: eu escuto o canto dos pássaros; o vento nas folhas das árvores; a água correndo no riacho e... o barulho de uma carroça!

E ela está vazia, não é?

O filho espantado pergunta ao pai: Como é que o senhor sabe que ela está vazia?

O pai sabiamente lhe responde: Porque carroça vazia faz muito barulho.

Santa Clara o convida, jovem, a fazer essa experiência do silêncio. Não um silêncio triste, vazio, mas um silêncio fecundo, dom de Deus, capaz de preencher e alegrar seu coração.

"Àquele cuja beleza é contemplada por todos os santos do exército celeste cujo amor nos encanta, cuja bondade e benignidade nos basta" (4CCL).

A vida de oração passa também por uma exigência de disciplina.

A primeira coisa que abrimos mão quando estamos muito atarefados é a nossa oração. É verdade ou não é?
 Sem uma certa disciplina facilmente abandonamos a vida de oração.

Clara era "diligentíssima e muito solícita na oração. E nisto se empenhava de maneira especial" (PC 7,3)

São muitos os testemunhos de suas irmãs a esse respeito: "A bem-aventurada mãe era muito assídua e solícita na oração que fazia largo tempo, humildemente prostrada por terra" (PC 1,9). "A madre era muito assídua na oração de dia e de noite" (PC 2,9); "ficava longo tempo em oração durante a noite" (PC 10,3).

A vida de oração de Clara nos lembra o que recomendou Jesus a seus discípulos: "É preciso rezar sempre, sem nunca desistir" (Lc. 18,1).


Pe. Gilson Sobreiro
Fundador da Fraternidade O Caminho